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reconfortante encontrar, com um cigarro em mãos e um sorriso sereno no rosto, aquele amigo que você via fumando cinco anos atrás, depois de experimentar mais uma tentativa de sentido numa sala suja no centro da cidade suja, onde as cadeiras enegrecidas - algumas ainda com cinzeiros na parte de trás, relíquias - acomodam desorientados como você, não importa o convite, a ocasião, o algo a celebrar, é sempre desorientação que reúne as pessoas lá ou aqui, no conforto da penumbra e das paredes descobertas por seus papéis que se desintegram, sucumbindo ao tempo. há uma moça cantando na frente da fileira de cadeiras, as cadeiras com cinzeiros atrás, e o fio acoplado ao seu rosto produz efeito eletrônico em sua voz e seus silêncios. você se esforça para entender, mas tudo que acaba sentindo é uma mistura de tesão e sono, e eu volto o olhar para a cantora de cabelos laranjas brilhando sob a luz quente - na ponta do fio, em sua boca, há uma bola vermelha que ela revolve entre a língua e os dentes, brincando com os efeitos sonoros provocados por estes movimentos. a materialidade do som é esmagadora (fúria!) e seguimos o fio e adentramos a garganta ruiva, encontrando uma aconchegante e úmida câmara de cordas e sangue.

3 comentários:

Jorge Leandro disse...

Experienciei com o narrador. Texto impecável, Aline.

Larissa Bello disse...

"...é sempre desorientação que reúne as pessoas..." Essa é uma verdade honesta. Adorei a forma como descreveu os detalhes que se somam a uma situação.

j. silva disse...

gostei muito do modo escreve, aline. abraço.