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Volto com a delícia das coisas não resolvidas. Minha ausência não é sentida - não há tempo nisto que eu finjo ser um pedaço de papel; e pra mim, cartesiano, não há nada sem o tempo. Já estou me vangloriando; eu, criação ingrata. Anônima. Que não tem nome pra si nem para as coisas que vê nem para as coisas que pensa sentir. Afundado no marasmo de minha observação, meu vocabulário é dos pobres o maior; faminto, chora por compaixão. Compreensão. Entrelaço os dedos nos outros e os ponho pra cima, até o ponto de estalar algumas vértebras. Essa é a felicidade do meu resto de dia, se queres saber, leitor ausente de um texto ausente. Mas ainda tenho muito guardado pra ti. Todo o vômito de toda uma breve vida. Só esperando o momento certo. Aquela inspiração que não vem nunca. Meus amores sempre foram impossíveis, insalubres, inconsoláveis, assim como todo o resto deste vasto nada.

4 comentários:

Alisson da Hora disse...

"Meus amores sempre foram impossíveis, insalubres, inconsoláveis, assim como todo o resto deste vasto nada."

Os meus também... como diria o Luis da Silva, em "Angústia", do Graciliano:

"O amor para mim sempre fora uma coisa dolorosa, complicada e incompleta".

beijos de boas-vindas.

Brubs disse...

Sua ausência é sentida, até falei de vc no twitter, procura lá, foi em algum dia de julho. :)
Um vasto nada muito significativo... embora não pareça, muitas vezes.

Achei o texto muito bonito. Muito. Esperando pelos próximos!

Camila S. disse...

Ausência sentida, o vazio não é o mesmo...

Guilherme disse...

Nada como um retorno aos posts com o seu melhor tipo de texto.

Só por registro, eu visitava seu blog com alguma frequência para ver se tinha coisa nova.