cento e dezenove

Seus seios, que nunca foram redondos, começavam a cair. Isso não lhe tirava o ar jovem, mesmo quando entrava em transe e fumava uma ou duas carteiras de cigarro em menos tempo do que deveria. Aparentava certa timidez e extrema ingenuidade, que logo se destroçavam, sob o olhar mais atento. Fingia falta de jeito em lidar com elogios, mas vibrava, num prazer estranho e silencioso, ao simples pronunciar de seu nome em lábio alheio. Exercer seu papel lhe contentava, e para dormir também não tirava a máscara, mesmo que dormisse sozinha havia anos. Sua companhia, num apartamento puído de um quarto, cujos azulejos encardidos lembravam uma inocente década de 70, eram seus dois gatos, Cortázar e Clarice. De vez em quando aparecia um ou outro amigo para ajudar a encher o cinzeiro mais rápido, ou abrir uma daquelas cervejas que estavam há meses apodrecendo na geladeira (ela só bebia vinho, de vez em nunca uma aguardente pra limpar a alma). Naqueles pisos de lajota deu os tropeços mais queridos da vida. Sentou inúmeras noites, ouvindo, na vitrola que também ficava no chão, um vinil do Cartola ou do Gardel, desidratando os olhos, tacando cinza pela janela da sala, gritando junto. Acordava rígida e renovada.

4 comentários:

Fred Caju disse...

Do caralho!

Estevão Daminelli disse...

cortázar, clarice, cartola e gardel.
quem precisa de mais?

F. Carolina disse...

se a receita funcionar, acho que estou precisando de uma aguardente...

#Cortázar, belo nome esse.

#Amei cada palavra.

Davi Machado disse...

Tinha lido esse lá no Facebook.
Achei interessante, relendo agora, além de interessante.