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Because
escrito em 23 de abril de 2011

pegar o vinil, sentir o seu peso. o seu brilho escuro. amar as suas falhas, acostumar-se  aos momentos em que o disco pula, cheio de arranhões, vários donos. sentir o cheiro do seu encarte. aquele cheiro de guardado, de antigo, um quê de podre e único. amar a sua materialidade, um amor sutil. 
observá-lo girando, com a impressão de que vai se desmanchar, toda aquela massa negra irá se derreter sob a agulha. mas ele continua apenas girando.
sentir o peso das coisas entrar pelo ouvido. e as segundas vozes são tão fortes e importantes, que é com elas que você escolhe cantar junto, misturando sua voz desafinada e emocionada ao chiado. importantes por dar totalidade à harmonia. tentar reconhecer cada um dos timbres. tentar imaginar os rostos - a expressão do canto no momento da gravação. morte viva.
uma música que te entorpece, que fode com o seu cérebro, não importa quantas vezes você a escute. a melodia, as vozes juntas, essa união, meu deus, essa união. parecem resumir os anos sessenta em alguns segundos, em algumas palavras. resumem aquele sentimento, aquele mesmo, que você não descreve em cem páginas.

Um comentário:

VerMent* disse...

"morte viva"... e dançante. por favor.

#o chiado do vinil me parece aquela linha tênue em que você não consegue captar o que a vida quer dizer. mas gosta mesmo assim...